Sobre o tesouro de sermos filhos competentes dos nossos pais

Faz algumas semanas, talvez até meses, que eu sinto que este texto quer ser escrito, quer chegar à superfície, como a água da fonte quer chegar à luz.

Faz algum tempo que eu peço para encontrar as palavras certas para me expressar, ou talvez ainda mais, encontrar um jeito bom para dar uma forma a essas palavras. Agora eu entendi que para mim o mais simples e também o mais belo é simplesmente contar de mim mesma.

Esta versão em português é uma tradução do meu texto original em alemão. Sou de um lugar chamado Südtirol/Alto Adige, que eu amo e do qual eu tenho orgulho. Este Tirol do Sul se encontra no extremo norte da Itália, na fronteira com Suiça e Áustria, no coração dos Alpes. Somos uma minoria cultural no território italiano que fala como primeira língua um dialeto alemão, porque este trecho de terra fazia parte da Áustria até 1919. Depois de décadas de luta para manter a cultura dentro do contexto italiano, temos hoje uma ampla autonomia política, fiscal e cultural.

Não tenho certeza de que o próprio contexto desta história seja compreensível aos leitores brasileiros. Talvez seja necessário ressaltar que os povos indígenas recebem internacionalmente muita atenção e reconhecimento por serem considerados guardiões de uma profunda sabedoria, que vem diretamente dos ancestrais e da própria mãe terra. Tem inclusive muita gente que acredita que para que a vida neste planeta continue, a gente precisa se voltar urgentemente para estas cosmovisões indígenas.

Bem então, vamos lá, no início está o agradecimento. O agradecimento à minha mãe, Erika Kofler e ao meu pai, Hans Brugger, pela minha vida

Eltern

Depois, o agradecimento às medicinas dos povos indígenas (em todas as suas manifestações), que constantemente me ensinam como compreender essa vida mais profundamente, de fluir com ela e de honrar e preservar ela dentro de mim e à minha volta.

Nem sempre eu soube disso, mas eu sou muito sensível. Tão sensível que por exemplo a medicina do Peyote só precisa chegar perto de mim, que o meu corpo já sente os seus efeitos. O meu ser precisa de muito amor, beleza, gentileza e calor. Acho que nós seres humanos temos isso em comum, mas me parece que alguns conseguem aguentar a falta disso melhor do que outros. Eu faço parte destes outros.

Contudo, a falta, ou escassez, me parece ser um elemento fundamental da cultura da qual venho na origem, o que com certeza pode ser explicado sociologicamente de diferentes maneiras. Bem, algo em mim começou há tempo uma busca por esse sol que afugente o frio em mim e sim, quem procura acha. O acesso a muito amor, beleza, gentileza e calor eu encontrei no Brasil, com o povo do Fogo Sagrado de Itzachilatlan e as famílias aliadas, Guarani e Igreja do Santo Daime em Florianópolis.

fogo temascal

O que isso tem a ver com a arte de sermos filhos competentes dos nossos pais?

Bem, eu me observo como estou ficando cada vez mais incomodada com tanta gente de medicina estrangeira, que chega na minha terra natal do Tirol do Sul para conduzir cerimonias e rituais indígenas. Isso é paradoxal porque desde que entrei em contato com essas medicinas, eu rezo ativamente para que também a “minha” gente, o meu povo das montanhas, pudesse receber ao máximo este acesso ao amor, beleza, gentileza e calor.

Então fui olhar mais profundamente para dentro de mim e cheguei à seguinte conclusão (talvez momentânea). O que gera estas resistências dentro de mim, é a minha impressão de que nós, povo das montanhas, diminuímos a nós mesmos em relação às nossas visitas. Que temos a tendência de colocá-las num pedestal e desta forma transferir para elas um poder que talvez nem todos vão tratar com tanto respeito quanto nós esperamos.

Eu sinto em mim uma necessidade incrível, de me encontrar com estas pessoas de medicina de igual para igual, a partir da nossa própria tradição. Para compartilhar com eles o que o nosso povo tem de precioso. E aí estou me dando conta agora que talvez não se trate em primeiro lugar de reavivar novamente as nossas antigas tradições, das quais eu suponho que ficaram enterradas ao longo dos séculos – bem, talvez isso também. Mas está me parecendo que antes disso, cabe fazer um passo fundamentalmente importante, que é simples e acessível a todos, mas nem um pouco fácil de fazer: que é exatamente este, de nos tornarmos filhos competentes dos nossos pais.

Escutei esta frase pela primeira vez de uma consteladora familiar, que a escola Waldorf onde os meus filhos estudam contratou, para constelar sistemicamente a própria escola. O que eu entendi desta frase foi assim: Nós nos tornamos filhos competentes dos nossos pais no momento em que a gente os reconhece 100% como os melhores pais para nós e aceitamos tudo, tudo que veio deles para nós – tudo o bom e tudo que consideramos ruim. Eles, portanto, nos deram exatamente o que necessitamos para estarmos preparados a cumprir, vamos colocar assim, a nossa missão na vida.

Enquanto a gente não der esse passo, temos a tendência a idealizar pessoas e instituições (no caso de cima, a escola, no nosso caso aqui, por ex. os povos indígenas) e de projetar encima deles aquela perfeição da qual sentimos falta nos nossos pais. Desnecessário dizer que isso é uma bomba-relógio. (Cheguei a mencionar que aqui estou contando sobre mim mesma?)

O que então isso significa concretamente na minha vida. A paz com os meus pais fecha um elo na corrente da minha raiz. Na corrente dos meus antepassados. No momento em que eu aceito, recebo e integro os meus pais em mim, eu recebo tudo o que veio para mim através deles. Ou seja, a minha genética inteira, todos os meus padrões de comportamento, todas, todas as peculiaridades culturais, tudo, de toda a minha ancestralidade. Que presentaço! Neste momento é um enigma para mim como durante tanto tempo só enxergava o “negativo” que eu relacionava aos meus antepassados. Toda a dor das guerras, a escassez, o costume de se esconder, de não mostrar os sentimentos, etc. etc. Mas se eu olhar bem, eu vejo por um lado uma força inimaginável nestas pessoas, de superar todos esses desafios e de continuar conseguindo o mais importante: de manter e passar para frente a vida, e desta forma de possibilitar a minha vida e a dos meus filhos amados.

Por outro lado, eu vislumbro que vindo pela minha linhagem de sangue repousa em mim um tesouro de conhecimento, sabedoria e experiência que consigo recuperar e ativar a partir do momento, em que eu me abro completamente para ele, em que eu recebo e integro tudo dele, quando eu digo SIM para ele. Eu até suponho, que é bem aqui onde se encontra o saber de como podemos viver novamente as nossas próprias tradições das montanhas de forma sagrada.

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Aceitar e incorporar os meus pais com tudo, tudo o que veio deles para mim, inclusive aquelas partes que eu gosto menos de mim mesma, que eu procuro esconder de mim mesma o melhor possível, tem amplas consequências na minha vida. Eu somente consigo transmutar o que eu antes tomei para mim. Ou seja, a partir deste momento do SIM, eu posso ficar conscientemente frente a tudo e olhar o que ainda faz sentido na minha vida, e o que não.

No caso específico do trato com as pessoas de medicina eu percebo, que não tenho mais a necessidade (inconsciente) de me fazer pequena, porque na realidade eu tenho vergonha de quem eu sou, de onde venho e da minha cultura. Não tenho mais a necessidade de me adequar a eles, de fazer tudo o mais parecido possível como eles, de imitá-los, por exemplo na dança, nos cantos, até o jeito deles de falar, de se vestir e se enfeitar. Até eu posso fazer tudo isso, se assim eu sentir, mas vai ser a partir de um outro lugar interno. E eu me coloco numa postura de troca. Aprendo com eles e ao mesmo tempo, os ensino, através do meu ser, simples, aberto e transparente. Me respeito e respeito todo o meu legado, me mostro e mostro todo o meu legado, o coloco a disposição para que nós, como humanidade, podemos aprender uns com os outros.

Fechando a lacuna, completando o elo na corrente da minha raiz eu sinto chegar uma outra força imensa: a força dos nossos avós, as montanhas. Estes amados gigantes, que com a sua beleza majestosa nos marcam desde muito pequenos. A elas, Montanhas Pálidas, eu dedico este texto. Para que possamos nos encontrar com cada vez mais consciência com grande respeito e gratidão.

 

Mitakuye Oyasin – por todas as minhas relações.

 

 

 

 

 

Mitakuye Oyasin – por todas as minhas relações.

Vom Schatz, kompetente Kinder unserer Eltern zu sein

Seit mehreren Wochen, vielleicht sogar Monaten, spüre ich, dass dieser Text geschrieben werden will, er will an die Oberfläche, wie Quellwasser ans Licht.

Seit einiger Zeit bitte ich darum, die richtigen Worte zu finden, um mich auszudrücken, oder noch vielmehr, die richtige Art, um diesen Worten eine Form zu geben. Jetzt habe ich verstanden, dass es für mich am einfachsten und auch am Schönsten ist, wenn ich einfach von mir selbst erzähle.

Um es noch kohärenter zu machen, müsste ich eigentlich in meinem Dialekt schreiben, so wie mir “der Schnabel gewachsen” ist. Aber wer weiss, vielleicht interessiert es ja auch noch andere Menschen, die nicht unbedingt aus Tirol kommen. Für sie möchte ich Sprachschwierigkeiten vermeiden.

Nun also.

Am Beginn steht der Dank. Der Dank an meine Mutter, Erika Kofler, und meinen Vater, Hans Brugger, für mein Leben.

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Dann, der Dank an die Medizinen (in allen ihren Manifestationen) der indigenen Völker, die mich konstant lehren, dieses Leben tiefer zu begreifen, mit ihm zu fliessen und es in mir und um mich zu ehren und zu erhalten.

Ich wusste das nicht immer, aber ich bin sehr sensibel. So sensibel, dass z.B. die Medizin des Peyote nur in meine Nähe kommen muss, dass mein Körper bereits ihre Wirkung spürt. Mein Sein braucht viel Liebe, Schönheit, Freundlichkeit, Wärme. Ich denke, das haben wir Menschen alle gemeinsam. Nur einige scheinen den Mangel daran besser auszuhalten, als andere. Ich zähle mich zu den anderen. Mangel aber, scheint mir ein grundlegendes Element in der Kultur zu sein, aus der ich ursprünglich komme, was sich wohl soziologisch auf verschiedene Arten erklären lässt. Nun, etwas in mir hat sich beizeiten auf den Weg gemacht, um nach der Sonne zu suchen, die in mir die Kälte vertreibt und, ja, wer sucht der findet. Den Zugang zu viel Liebe, Schönheit, Freundlichkeit und Wärme habe ich in Brasilien gefunden, bei den Menschen des Fogo Sagrado de Itzachilatlan und den verwandten Familien der Guarani und der Kirche des Santo Daime.

fogo temascal

Was hat das nun mit der Kunst zu tun, kompetente Kinder unserer Eltern zu sein?

Nun, ich beobachte mich, wie ich zunehmend Resistenz empfinde, wenn so viele Medizinleute von ausserhalb, in Südtirol Zeremonien und Rituale abhalten. Paradox, seit ich mit diesen Medizinen in Kontakt gekommen bin, bete ich aktiv dafür, dass “meine” Leute, mein Volk aus den Bergen, ebenfalls den Zugang zu dieser Liebe, Schönheit, Freundlichkeit und Wärme so viel wie möglich bekommen mögen.

Also habe ich mir das in mir genauer angeschaut und bin zu folgendem (vielleicht zwischenzeitlichen) Schluss gekommen. Was in mir diese Widerstände auslöst, ist mein Eindruck, dass wir, Volk der Berge, uns selbst unseren Besuchern gegenüber klein machen. Dass wir die Tendenz haben, sie auf ein Podest zu stellen und ihnen so eine Macht übertragen, mit der vielleicht nicht alle so respektvoll umgehen, wie wir es hoffen.

Ich spüre eine unglaubliche Sehnsucht in mir, diesen Medizinleuten auf Augenhöhe zu begegnen, mit unserer eigenen Tradition. Sie teilhaben lassen, an dem, was unser Volk an Wertvollem hat. Und da merke ich gerade, dass es vielleicht gar nicht primär darum geht, unsere uralten Traditionen, von denen ich ausgehe, dass sie im Laufe der Jahrhunderte verschüttet wurden, wieder zum Leben zu erwecken – nun, vielleicht auch. Aber gerade kommt mir vor, dass es zuerst einen Urwichtigen Schritt zu machen gilt, der zwar einfach und für jeden zugänglich ist, aber auf keinen Fall leicht zu vollziehen: nämlich genau der, dass wir zu kompetenten Kindern unserer Eltern werden.

Ich habe diesen Satz zum ersten Mal von einer Familienaufstellerin gehört, die von der Waldorfschule, wo meine Kinder den Kindergarten besuchen, engagiert wurde, um die Schule systemisch aufzustellen. Sie hat diesen Satz so erklärt: wir werden in dem Moment zu kompetenten Kindern unserer Eltern, sobald wir sie 100% als die besten Eltern für uns anerkennen, und alles, alles das annehmen, was wir von ihnen mitbekommen haben – alles Gute und alles, aus unserer Sicht, Schlechte. Sie haben uns also genau das gegeben, was wir gebraucht haben, um uns darauf vorzubeireiten, wenn wir so wollen, unsere Mission im Leben zu erfüllen.

So lange wir diesen Schritt nicht machen, tendieren wir dazu, andere Menschen und Institutionen (in dem obigen Fall, die Schule, in unserem Fall hier, z.B. indigene Völker) zu idealisieren, und in sie diese die Perfektion hineinzuprojezieren, die wir bei unseren Eltern vermisst haben. Unnötig zu sagen, dass das eine tickende Zeitbome ist. (Hatte ich erwähnt, dass ich hier von mir selbst erzähle?)

Was bedeutet das nun also konkret in meinem Leben. Der Frieden mit meinen Eltern schliesst eine Lücke in der Kette meiner Verwurzelung. In der Kette meiner Vorfahren. In dem Moment wo ich meine Eltern annehme, nehme ich alles an, was durch sie zu mir gekommen ist. D.h. meine gesamte Genetik, sowie meine ganzen Verhaltensmuster, alle, alle kulturellen Eigenheiten, alles, meiner gesamten Vorfahren. Was für ein Riesengeschenk! Gerade ist es mir schleierhaft, wie ich so lange nur alles “Negative” gesehen habe, was ich mit meinen Vorfahren verbunden habe. Den ganzen Schmerz der Kriege, den Mangel, das sich verstecken, Gefühle nicht zeigen, usw. usw. Doch wenn ich genau schaue, sehe ich einerseits eine unglaubliche Kraft in diesen Leuten, diesen ganzen Herausforderungen zu trotzen, und das allerwichtigste weiterhin immer zu schaffen: das Leben zu erhalten und weiterzugeben und so mein Leben und das meiner geliebten Kinder zu ermöglichen.

Andererseits erahne ich, dass durch meine Blutlinie ein Wissens- und Erfahrungsschatz in mir ruht, den ich ab jenem Moment heben und aktivieren kann, in dem ich mich ihm ganz öffne, alles von ihm annehme, ja zu ihm sage. Ich gehe sogar davon aus, dass genau hier das Wissen liegt, wie wir unsere eigene Tradition wieder auf heilige Weise leben können.

Goasslschnelln

Das Annehmen meiner Eltern, mit allem, allem, was durch sie zu mir gekommen ist, sogar jene Anteile, die ich am wenigsten an mir mag, die ich vor mir selbst so gut wie möglich verstecke, hat weitreichende Folgen in meinem Leben. Ich kann in mir nur das verwandeln, was ich zuerst angenommen habe. D.h. ab diesem Moment des JA sagens, kann ich mich allem bewusst zuwenden und sehen, was für mein Leben noch Sinn macht, und was nicht.

Im spezifischen Fall des Umgangs mit den Medizinleuten merke ich, dass ich nicht mehr das Bedürfnis habe, mich selbst klein zu machen, weil ich mich eigentlich meiner Selbst, meiner Kultur usw. schäme. Mich ihnen anzupassen, ihnen alles so gleich wie möglich zu machen, nachzumachen. Z.B. ihren Tanz, ihre Gesänge, sogar ihre Art zu sprechen, sich zu kleiden und zu schmücken und zu tun. Stattdessen, gehe ich in Austausch. Ich lerne von ihnen und gleichzeitig lehre ich sie, durch mein einfaches, offenes und transparentes Sein. Ich respektiere mich und mein gesamtes Erbe, zeige mich und mein Erbe, und stelle es zur Verfügung, damit wir, als Menschheit, voneinander lernen können.

Aus der Schliessung dieser Lücke in der Kette meiner Verwurzelung spüre ich eine weitere Riesenkraft hervorkommen: die Kraft unserer Grosseltern, der Berge. Diese geliebten Giganten, die in ihrer majestätischen Schönheit unser Leben von klein auf prägen. Ihnen, den Bleichen Bergen, widme ich diesen Text. Auf dass wir uns immer bewusster, in grossem Respekt und Dankbarkeit begegnen mögen.

 

Mitakuye Oyasin – für olle meine Beziehungen