Há vida após a maternidade!

Estou sentada, exausta, numa poltrona confortável, o coração leve e um sorriso na boca, olhando para a minha pequena família. O meu marido está se soltando na pista de dança, o pequeno de três e a maior de 5 tentam pegar com a mão as luzes refletidas no chão por uma daquelas bolas de discoteca de antigamente. Várias famílias vieram também, para um evento que junta bailada com comidinhas sustentáveis e é para ser assim – em família (Organizado pelo amigo Vincent Steinmann e parceiros https://www.facebook.com/vincent.steinmann.9?fref=ts). E eu, olhando, encho o meu coração de orgulho e dessa sensação indescritível: há vida após a maternidade!

Parece que esta experiência veio como uma brisa de alento para dentro do meu sistema e – consequentemente – para toda a família. Até este momento não tinha me dado conta de quão apagada eu sentia a minha chama vital, de quanta saudade eu tinha de mim mesma antes de tornar-me mãe.

Peraí … de jeito e maneira eu quero dizer com isso que me arrependo de ter embarcado nessa louca aventura de colocar dois filhos no mundo, muito menos de acompanhar suas evoluções da melhor forma que eu consiga, para que assim se dêem bem na vida (e que o mundo se dê bem com eles também).   Muito pelo contrário, aquela velha frase:  “ …nasceu uma criança, nasceu uma mãe…”, para mim é uma grande verdade, serei eternamente grata pela bênção desta iniciação.

Porém… não posso negar que o ser mãe realmente requer muito de mim. A ponto de sentir a minha chama de vida bem pequena.

Preciso dizer que eu reflito bastante sobre as coisas, é uma das minhas características, gosto de observar e ir fundo no estudo do que a vida me coloca. Então, tem momentos em que a maternidade me parece um grande peso. Por exemplo, quando começa o ano letivo e entra aquela rotina, que todo dia precisa acordar cedo e todo o procedimento começa cada dia igual: levanta, pede para o marido fazer o café, ajuda as crianças a colocarem a roupa entre gritos e chutes “nãaaaao, essa camiseta nãaaaao, quero botar aquele vestido” (de festa, branquinho para brincar na lama do quintal da escola), pede de novo para o marido fazer o café, ajudar eles a comerem, escovarem os dentes… “vamos, estamos atrasados!”… uff, só de pensar já fico sem fôlego.

Só que aí começo a me questionar… Lembro sempre de uma frase da permacultura, que diz mais ou menos assim, que se estiver fazendo muito esforço, pára um pouquinho e observa. Vê quais ajustes precisos se fazem necessários. Pois é uma lei da vida que um sistema em bom funcionamento não requer esforço, ele se sustenta sozinho.

Quase sempre, eu percebo, este ajuste tem que ser feito na minha própria maneira de ver, interpretar e julgar as coisas. Uma coisa que eu observo, e ela não tem erro… Quando eu me coloco totalmente presente aqui e agora, numa abertura para a vibração das crianças, é como se eu entrasse no mundo delas, eu consigo fluir junto com elas e tudo vira… uma delícia. Sério, chega a ser inacreditável. De repente a gente faz as coisas juntos, eu chego a me divertir junto com eles e – pasmem – me renovo e todo mundo fica nutrido de amorosidade.

Claro, a minha chama vital não estaria tão apagada se eu conseguisse entrar neste estado com mais frequência. Olhando para isso eu me dei conta de o que acaba comigo são as minhas ideias sobre a maternidade e, na realidade, sobre a própria vida adulta. Existe em mim uma crença de que ser adulto significa ser responsável, o que significa… ser séria! Acabou a brincadeira…acabou a moleza…a partir daqui é seriedade em prol de responsabilidade o tempo todo. Uff, fala serio.. ninguém merece! E mãe então: tem que educar! Educar… verbo do latim que significa conduzir para fora (da ignorância). Gente, me dou conta que eu estou apegada a uma visão retrógrada, segundo a qual a criança precisa ser conduzida para fora da sua ignorância, para se tornar um adulto iluminado, que nem eu. Adulto esse que deixa apagar a sua chama vital porque acredita que o mundo é muito sério.

Sinceramente, tem que rir de tanta contradição.

Sou muito grata a estudiosos da educação, como, por exemplo, Jesper Juul, um terapeuta de família dinamarquês, que vai desconstruindo conhecidos conceitos sobre educação, colocando o foco em questões que para mim fazem muito mais sentido. Segundo ele, os pais “(…) deveriam relaxar. 80% do que entendemos como educação é supérfluo. Falamos demais, quando a educação acontece nas entrelinhas. (…) Como os nossos filhos se comportarão com 20 anos não é a consequência da nossa educação, e sim da nossa convivência na família. Somos exemplos, bons e ruins, 24 horas por dia”

Gosto desta abordagem, porque ela convida para colocar o foco em mim mesma. A tal autoresponsabilidade que eu sinto como uma verdadeira libertação. Olhando para que tipo de adultos eu gostaria que os meus filhos se tornassem, me mostra o tipo de adulta que eu quero ser.

E assim vamos dançando, todos juntos em família, esta grande aventura que nos une. E eu desconfio que tal vez não seja necessário esperar após a maternidade para sentir a vida plenamente.

No Brasil há um livro publicado de Jesper Juul: Criando uma Família Competente – os princípios básicos para um bom e equilibrado relacionamento familiar

Imagem: John William Waterhouse: Gathering Almond Blossoms

4 comentários em “Há vida após a maternidade!

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